O encerramento dos pequenos estabelecimentos de ensino do 1.º ano promete mudar a paisagem rural. Mas se para uns a ausência de escolas não é responsável pela desertificação, há quem não tenha dúvidas de que o seu desaparecimento vai acelerar a crise já instalada nos territórios rurais. A Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) concorda com os "motivos pedagógicos" da decisão ministerial, mas lembra que só faz sentido mudar os alunos "se for para melhor"..Rui D'Espiney, director executivo do Instituto das Comunidades Educativas (ICE), reconhece que "a escola não é o único instrumento que trava a desertificação" das aldeias, sobretudo no interior. "Mas quanto mais se descapitalizar as comunidades, retirando-lhes os serviços e tudo o que lhes garanta alguma qualidade, mais elas sofrem", afirmou ao DN, acrescentando que "a escola não combate e a crise do mundo rural, mas a sua saída vai acelerar essa crise". Até porque "há muitos pais que perante este esforço das crianças vão tender a deslocar-se para zonas mais urbanas"..Por outro lado, o responsável do ICE - que tem o projecto nacional das escolas rurais - lembra que "a presença de crianças nas aldeias é um factor de reanimação das comunidades" e considera que a socialização dos meninos é possível. .António Costa, presidente da Junta de Freguesia de Figueira de Lorvão, no concelho de Penacova, lembra que em muitas aldeias "a escola ainda é a única instituição viva" e que a sua saída aumentará a desertificação. Já o presidente da Câmara de Vila Nova de Foz Côa, Emílio Mesquita, diz que "o facto de as crianças conhecerem o concelho" pode ajudá-las a descobrir como o ajudar..Autarquias "com reservas".Quanto à concretização da intenção da tutela, António José Ganhão, que tem o pelouro da Educação na Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), diz que não pode fazer ainda "uma avaliação global", mas admite que há autarquias que "aderiram de imediato" e outras que "mostraram reservas". A associação "fez eco" destes casos à ministra, que prometeu pronunciar-se sobre isso em Agosto. E onde não forem realizadas obras, ou seja, onde não estiverem criadas as tais "melhores condições" nas escolas de acolhimento, "não se pode avançar". Um cenário que o faz ter "muitas dúvidas" de que se consiga realmente fechar todas as escolas propostas.."Em caso de impasse, o ministério decide e os municípios têm que cumprir. Podem é dizer que não têm meios para o fazer", esclarece, inquirido pelo DN. A medida, diz, "é inegável do ponto de vista pedagógico", mas "todos os custos devem ser suportados pelo Governo", sobretudo a nível dos transportes. E diz que lhes foi dada essa garantia..Recorde-se que, em 2002, o Executivo de Durão Barroso defendera o fecho de centenas de escolas com menos de 11 alunos. Na altura, um dos argumentos invocados era que cada um desses alunos custava ao Estado 14 mil euros por ano. SJ